Chegou uma cachorrinha nova, serelepe, como um sorriso que precisava chegar depois ter ficado distante. Sinto falta do frio na barriga nas tardes de sábado e continuo fazendo minha mesa posta, com meus petiscos favoritos e um espumante estupidamente gelado. Tem sempre coca-cola zero na geladeira, porque respeitar esse meu gosto é também respeitar tudo aquilo que abri mão e fui deixando por aÃ.
Comprei um carro que na prática ainda pertence ao banco, mas é a conquista que recebi depois de tanto caminhar por aÃ. Confesso, sinto saudade de pedalar, morar próximo de tudo e todos e ainda manter a coragem para tentar andar de patins. Nesses anos e algum tempo depois, nunca mais tentei.
Assim como nunca mais tentei alguém. Nunca mais me joguei sem medo de cair no chão. Nunca mais meus olhos brilharam e a barriga nunca mais gelou. Nunca mais inventei assunto por dias e convites para programas inventados. Nunca mais me apaixonei.
E nesses anos e algum tempo depois, compreendi que a secura destes tempos não é uma exclusividade minha. Nos outros que me cercam também há uma carência de paixões desmedidas, frio na barriga e olhos brilhando.
Nunca mais contei de ninguém para alguém. Nem de um beijo aleatório, nem dos dates estendidos e nem dos meus interesses pessoais. Não toquei mais no seu nome e à s vezes engasgo ao dize-lo. Algumas palavras sempre carregam significados implÃcitos, à s vezes sinônimos e à s vezes formações morfológicas não tão boas assim. Alguns anos e algum tempo depois, é este o caso.
Como não tive energia para ter outras paixões por aÃ, só me restou a carreira. Com altos e baixos, chegou na posição que sempre busquei - visibilidade, poder, controle e reconhecimento. Parece que a soma dos quatro elementos não resulta em tanta coisa assim, mas tem me levado a lugares em que mereço estar. O Secretário, o técnico, o polÃtico, o ''quem fez'' e o ''quem resolve'' se fundiram à minha personalidade, e como numa comédia romântica, daquelas em que cochilávamos no sofá (que foi embora), também ajudam a engrossar a casca de laranja lima que foi se formando aqui.
Alguns anos e algum tempo depois, sem muita pretensão, entre um gole e outro, tentam me dar alguma resposta que não encontrei. E, convenhamos, depois desse tempo e de tanta coisa, talvez não valha a pena buscá-la frente a tantas outras que busco por aÃ.
Nesse caminho, cruzando um ou outro, lidando com coincidências quase improváveis e circulando por estradas desconhecidas, há um fundo de mim mesmo imutável, coberto por diversas outras camadas que se criaram ao longo desses anos e desse tempo depois. Queria poder dizê-las, uma a uma, entre vinhos e cigarros mentolados, mas eu me conheço e sei como guardo quinquilharias que sempre me recordam de algo. A voz embargaria, os olhos marejariam e alguns anos e algum tempo depois, eu ainda não saberia o que dizer.
Assim como não soube desde a primeira água com gás na aurora de janeiro e o último café no crepúsculo de novembro. Era melhor ter ficado em silêncio e ter imaginado uma história subjetiva que não aconteceria. Mas sinceramente? Alguns anos e um tanto de tempo depois, já não importa mais.
Já passou bastante tempo.