Jesus não vai voltar antes dos seus 87 anos, pare de se pautar com medo do que os outros que dizem falar por ''Ele'' vão dizer. Seus pais vão se separar e você vai deixar de ser filho único. E não, não se arrependa de fazer peripécias no colégio, essas histórias vão atrair público e amigos que você nem imagina. E não se imagine no casamento dos seus amigos aos 21, ninguém vai se casar, ninguém vai continuar sendo seu amigo. Você vai pra São Paulo, sim, mas não quando você quiser e sim quando merecer - e não será nada parecido com Skins, sua mãe será severa demais pra que você imagine-se usando drogas por aÃ.
A vida não será florida, muito pelo contrário, você vai chorar muito e use essas lágrimas como um incentivo. Vão te chamar de ladrão, de bicha, maconheiro - e, no fundo, você sempre foi um transgressor, orgulhe-se disso e jamais, jamais, perca seus sonhos, são eles que o movimentarão. Você não vai conseguir fazer um intercâmbio ou estudar lÃnguas em outro paÃs, mas vai conseguir outras coisas intangÃveis, outros sonhos impossÃveis e vai estudar na USP. Sim, você vai conseguir, mas só quando parar de ouvir os outros desmerecendo seus sonhos e seus desejos. Acredite mais em você e no que você quer, assim, um dia, seu pai vai lhe mandar uma mensagem num aplicativo de celular dizendo: -Filho, você vai ter um irmão! A vida é assim, vai te dar as coisas um bom tempo depois de pedi-las, mas lhe ofertará o melhor, o intangÃvel.
Alguns dias serão ruins, reitero o que disse, mas não caia na babaquice de tomar Bupropiona e vodca ao mesmo tempo - a sonda vai te incomodar, as pessoas vão se preocupar e ao mesmo tempo te incomodar e você, no fundo, não precisa disso. Apaixone-se menos, ninguém é tão perfeito quanto parece. Não se abra tanto e com qualquer pessoa - saiba em quem confiar e como confiar, vai ser muito ruim lidar com os seus segredos espalhados por aà e principalmente com a dor de saber que você não tem tantos amigos assim. Alguns amigos serão amigos por não se importarem tanto e não viverem tanto a sua vida, valorize isso: à s vezes quem está presente é quem está longe. Treine sair um pouco de casa sozinho, não dependa dos outros, ninguém te valoriza tanto quanto parece. E a vida, ela é uma caixinha de surpresas...sabia que você vai conhecer BrasÃlia? E vai sonhar, fantasiar, se emocionar como sempre aconteceu. Entenda que esse é um passo que a vida deu, os outros dependerão de você.
Confie no seu terapeuta, ele é fantástico. Não brinque tanto na rua, leia alguns livros. Limpe mais o seu guarda-roupa e tire as tranqueiras da estante. Mantenha-se com o essencial. Revele as fotos antes que as perca e fique só com memórias que vão se apagando. A sua turma vai se reformular diversas vezes, apenas algumas peças continuarão, outras entrarão e o jogo sempre será favorável pra você - se você quiser que seja assim. Não tenha medo do que não conhece. Não tenha medo do que já conhece. Não tenha medo de você mesmo. Enfrente, lute, busque. Aos vinte e um anos a sua vida não será fantástica, mas será recheada de boas histórias e vivências, mesmo que você não siga seus próprios conselhos e nem escute sua mãe - mas se você quiser, tudo pode ser melhor. Você se dará conta de que não é nada e ao mesmo tempo é fantástico. Sim, você é fantástico! Se ame mais...aos 13, aos 15, aos 17, aos 19, aos 21 - cabalisticamente, os anos Ãmpares, que você tanto ama, serão significativos. Quando precisar de alguém, encontre-se com você mesmo.
Seu avô vai desencarnar. Seu amigo Theo também. Não esforce-se para lembrar-se deles, naturalmente eles têm de ir embora, mas saiba que sempre estarão com você. Chore um, dois dias. Mas continue firme. Você precisa mudar o mundo, você pode mudar mundo! Queira! Mas agora, com 11 anos, por favor, não se desfaça do seu Super Nintendo!
Cupim à mesa com um vinho merlot servido numa taça de um vidro tão fino que quase aparenta ser cristal. Estamos frágeis como as duas taças se tocando em meio ao brinde. Arroz, batatas, cupim, vinho, uma música tocando longe na cozinha e o ventilador ligado esfriando o ambiente. Há dois perfumes se misturando, um deles da comida, o outro do creme que nutre os seus cabelos que, por desejo próprio, devem estar entre meus dedos antes mesmo da sobremesa. Somos nós dentro de sessenta metros quadrados rindo das coisas do passado. Fotografamos alguma coisa e eu posto numa rede social. É o fim da noite, imaginam os outros, quando começamos a viver aquilo que nos interessa. Seu nariz, desenhado como uma flecha, não tem outra função senão coroar seus dentes. Você quer dizer alguma coisa, mas eu, faminto dos teus lábios sobre os meus, digo em alto e bom som: -Me beija. Me revoluciona!
Cupim à mesa. Sete horas da manhã. É hora de acordar.
¡Cierra su boca!
E tenta compreender o que quero dizer
Enquanto tenho que escolher
Qual morte morrer
Qual sonho reviver
Qual folha rabiscar
Qual homem mal amar
¡Cierra su boca!
E compreende aquilo que não digo
Nesse silêncio: perigo!
¡Cierra su boca!
Para de tentar revolucionar
¡Cierra su boca!
Chega de desconstruir
¡Cierra su boca!
¡Cierra su boca!
E me ouve:
Me beija. Me revoluciona.
A Venlafaxina tem tido êxito em todos os efeitos colaterais sobre o meu fÃsico. Ânsias durante o dia, náuseas pela tarde e uma fraqueza tão perene quanto a garoa que cai lá fora. Tenho medo de ficar dependente dessa fraqueza tanto quanto estou do Zolpidem...um comprimido e menos de uma hora depois me encontro no sono mais profundo e revigorante que já tive em tempos. Ainda passo as noites, antes de dormir, desenhando e apagando no teto os rascunhos de um futuro que não vai acontecer. Carreira, casamento, filhos, viagens, discursos e vitórias. Nenhuma noite é reservada à s doenças, aos atritos, à s tristezas, à s derrotas, não!, todas as noites são reservadas a um futuro brilhante e distante.
À medida que vou ingerindo essas drogas, sinto que uma fogueira acesa vai consumindo todas as memórias em papel e lápis. Já não consigo mais rasgar as folhas do pequeno caderno de desenhos com meus gizes de cera, sequer me lembro de como foi triste o dia em que as pessoas partiram e mais ainda, tento, a todo momento, trazer a pesada carga emocional daquele dia ruim que tive a fim de apagar as lágrimas que queimaram meu rosto pela vergonha, pela dor, pela depressão.
Estar doente me faz me ater mais aos meus instintos, aos meus sonhos, aos meus projetos individuais desenhados no teto escuro. É um investimento pesado em terapias, análises, medicamentos e alimentos diferenciados que, pesando no bolso, pesa minha consciência. Eu preciso ficar bem. Se não por mim, por quem se foi na fraqueza de não ter consigo. É preciso que eu continue hasteando, durante as pequenas vitórias, a bandeira daqueles que sonham demais, sofrem demais, amam demais e sobretudo: se excedem para não ser escassez. Eu posso ser tudo, mas eu não sou escasso...sou mais do que seu olho pode ver, só não desonre meu nome.
Piracema: ir contra a corrente para sobreviver. É sobre isso que eu gosto de falar, amar, chorar, sofrer e sonhar: sobreviver.
A minha recusa sobre a sua partida talvez só tenha uma explicação. Antes de você ir embora, eu já estava caminhando pro lado oposto sozinho. E tudo o que era meu, refletido em você, sempre me incomodou em demasia. O jeito, os gostos, as preferências, as vontades, os sonhos e os defeitos. Os ''Nossa, eu também!'' no fundo significavam um incômodo em saber que outro ser, extremamente parecido comigo, competiria comigo pelo mesmo pedaço de pudim. E que não haja competição, no cerne do meu ser estamos todos, pais e filhos, amigos e irmãos, competindo uns com os outros pelas experiências carnais: dinheiro, prazer, fama, reconhecimento...
No Ãmpeto de parar a minha locomotiva, já a mil por hora, resolvi olhar pra dentro e rever todas as minhas histórias. Realmente, quando você decidiu ir embora, eu, infelizmente e num ato egoÃsta, já havia dito adeus da forma mais covarde que alguém pode - não dizendo. Nossa distância é mero acaso dos meus primeiros passos em direção a um ''lugar novo'' e só ''meu''. Mas é fato que além de nascer e morrer, não se sobrevive sozinho e eu, parado no caminho, não sei mais como voltar tanto até chegar a você. O seu caminhar foi mais rápido do que o meu, talvez por se importar menos com os detalhes e os espinhos, ou até mesmo por um presente do destino, você chegou muito mais longe do que eu - se é que nós chegamos a algum lugar. Eu gostaria muito que você voltasse, por que eu já não sei voltar e estou calcificando todos os meus sentimentos - é ruim sentir demais! Só desejo que nossas linhas retas se tornem parábolas que se unem no auge desse gráfico que é a vida. No mais, quando penso nos nossos nós, só há algo a ser dito:
É o reflexo perfeito de todos os meus defeitos. Antes de você ir embora, eu já havia partido.
Algumas tristezas pequenas se acumulam e formam uma bola de neve. De repente, várias delas se unem e descem ladeira abaixo. Há avalanches que vêm pra nos derrubar mas existem árvores e edificações que, mesmo abaladas, envergam e continuam firme no seu propósito. Eu fui chamado a fazer parte desse grupo.
Nem uns antidepressivos, nem meia garrafa de vodca, nem frustrações, nem conflitos internos, todos eles, unidos no propósito de me tombar, foram capazes de abafar meus gritos -Eu não quero morrer!
E por não querer tantas coisas pela vida, como os segundos lugares, os feitos medianos, os ensinamentos medÃocres e maneiras de ser/estar que não estão nos extremos positivos ou negativos, fui buscando viver na corda bamba que do alto pode me levar ao chão em segundos. Fui me perdendo em querer ser o melhor, estar melhor e aparentar ostentar aquilo que eu não sou, escondendo as minhas falhas que me fazem único. Polêmico, dramático, sarcástico, irônico - seja o mal que for, é o que me faz ser quem sou e oprimir isso, na tentativa de ser aceito, é a pior coisa. Eu não quero ser aceito, eu nasci para aceitar.
Dois dias são importantes na nossa vida: o dia em que nascemos e o dia que descobrimos para o que nascemos. Ainda não sei com que material vou desenhar meu legado, mas estou caminhando para tentar deixar alguma lição para as próximas gerações. Eu não quero morrer e nem pensar nessa hipótese tão estapafúrdia que tentei pôr em prática. Eu preciso viver, por algum motivo maior, por alguma causa além do meu entendimento. Mesmo que com remédios que me deixam nauseado durante o dia, mesmo com obrigações difÃceis de cumprir, mesmo com a necessidade de ter que colocar de lado o que tanto amo levar comigo... Há sempre uma nova chance de consertar as coisas, a minha história não acaba aqui.




